Metafísica e a Modernidade

A Metafísica é um tema recorrente da Filosofia desde a Grécia Antiga, passando pela Modernidade até a prova do Enem. Nesta aula vamos investigar quais foram as principais mudanças que ocorreram na Metafísica durante a Modernidade. Vem com a gente!

A Metafísica é um campo bem antigo da Filosofia, surgiu lá na Grécia Antiga quando um camarada chamado Aristóteles decidiu investigar a essência do mundo. Embora essa ideia não fosse nada inédita para época, pois os filósofos pré-socráticos já buscavam explicações a respeito do mundo.

Os Pré-Socráticos teorizavam que o cosmos foi gerado por um princípio metafisico chamado Arché, isto é, uma substancia que daria origem a todo o universo. Cada um deles tinha sua hipótese, desde Tales e a água até Demócrito e o átomo.

Atenção! Uma vez que a Metafísica é em si algo problemático e problematizado pela Filosofia, e a Modernidade é influenciada por diversos acontecimentos históricos anteriores a ela, é muito importante que você tenha o contexto global que abrange o tema na ponta da língua. Portanto, é bastante interessante que você leia as aulas anteriores sobre a Metafisica de Aristóteles, os Pré-Socráticos e a Escolástica.

Todavia, generalizando uma explicação, a Metafísica estuda o que não é aparente. Por exemplo: a natureza das coisas, a necessidade delas ou mesmo o mundo e o seu primeiro princípio.

ontologia ramo da metafisica
Figura 1. A Ontologia é classificada na Filosofia como o ramo geral da Metafísica porque se ocupa dos temas mais abrangentes e abstratos da área.

Sendo assim, é plausível supor que qualquer que seja o filósofo, ao fazer uso da razão afim de explicar algum aspecto do mundo também faz uso da Metafísica. Ora, os campos da Política, Ética, Estética e afins enunciam algo a respeito da realidade das coisas. Assim sendo, implicam em um ponto de vista Metafísico sobre a forma como essa realidade se dá. Ou seja, ao falar sobre o mundo, estamos falando da Metafísica.

Para entender melhor, dá só uma olhada no vídeo a seguir e se liga como as perguntas Metafísicas são antigas. Confira também seus estudos e seus paradoxos ao longo da história:

Modernidade

Se desde a Grécia Antiga os filósofos já discutem essa tal de Metafísica, é provável que os antigos paradigmas acabaram dando lugares a outros. É só pensar no quanto a Filosofia se dividiu dando origem às diversas ciências que, por sua vez, se dividem em áreas cada vez mais especificas. Com esta mudança os estudos metafísicos passaram a desempenhar papeis um tanto quanto diferentes daqueles originalmente propostos por Aristóteles em sua Filosofia Primeira.

charge modernidade
Figura 2. A Modernidade é um período histórico no qual a razão é crivo e filtro indispensável a todo entendimento. Vai do século XV até o XIX. Nesse período Deus foi e substituído pela ciência humana. É importante não confundir com Contemporaneidade, que é a qualidade ou condição de ser contemporâneo, de existir ao mesmo tempo; coexistência.

Ora, com o declínio da Escolástica, pensamento religioso que caracterizou a Idade Média e a revolução ocasionada pela Filosofia do Renascimento, houve um certo empoderamento da Razão. Isso culminou no movimento Iluminista do século XVIII e deu origem a Modernidade. Fato que traria gigantescas mudanças para a Filosofia, bem como, para toda sociedade, ocidental e oriental.

Embora seja um tanto quanto complicado datar a passagem de um período filosófico para o outro, no que tange a Modernidade, o consenso é que, as “paradas” que originaram a Revolução Francesa foram o auge da superação da Filosofia Escolástica bem como da Idade Média.

Então, foi justamente na “treta” com o pensamento Escolástico (aquela corrente filosófica da idade média) e na reafirmação da razão como o meio para o conhecimento desatado de dogmas teológicos, é que a Metafísica se estabeleceu na Modernidade.

Metafísica na Modernidade

A princípio, todo esse uso da Razão aliado com as ideias de alguns filósofos da época como René Descartes, serviram de pano de fundo para os acontecimentos inaugurais da Modernidade.

A Razão passou a ser mais objetiva, uma ferramenta utilizada para a compreensão da realidade e do pensamento humano. Esse processo recebeu de um grande filósofo chamado Weber o nome de desencantamento do mundo.

metafísica na modernidade
Figura 3. Na Modernidade passamos a nos despir do conhecimento fundamentado em crenças e religiões. As explicações acerca do mundo se fundamentavam na razão, quebrando aquela “vibe” religiosa dos séculos passados.

A Metafísica na Modernidade se ocupou de desvencilhar Razão e Fé, enquanto lançava uma nova busca a respeito do ser. Daí a importância de René Descartes na transição para a Modernidade.

Além disso, esse sujeitinho ilustre indagava-se sobre a possibilidade do conhecimento, isto é, o que nos é possível conhecer? Resgatando, em certa medida, debates remotos que datam da Grécia Antiga, reaparecem na Patrística e Escolástica e agora ganham uma nova abordagem.

descartes
Figura 4. Descartes que afirmava que o ser humano seria composto por duas substâncias, que são distintas e separadas, res cogitans ou substância pensante e res extensa ou substância extensa.

A questão do método é algo bastante importante para a história do pensamento filosófico, foi com esse tipo de discussão que foram criadas correntes filosóficas como o Empirismo, que veio fazer frente ao chamado Racionalismo.

Empirismo e Racionalismo

O Empirismo é a corrente filosófica que defende a ideia de que conhecimento só pode vir (exclusivamente) da experiência. Ora, tudo aquilo que podemos saber a respeito do mundo nos é aprendido pelo mundo externo através de nossos sentidos. Essa galera se pautava naquele método criado pela Lógica chamado de Indução. Eles ficaram conhecidos como empiristas.

De maneira geral, o método indutivo busca alcançar a verdade a partir da análise de uma quantidade de casos particulares. Assim, é possível, segundo alguns empiristas, chegar a uma verdade geral. Saca só:

A Capitã Marvel voa;

A Capitã Marvel é uma super heroína,

O Homem de Ferro voa;

O homem de Ferro é um super herói.

A Ravena voa;

A Ravena é uma super heroína.

O Thor voa;

O Thor é um super herói.

Logo super heróis/heroínas voam.

Figura 5. Fica ligado(a), nem todo argumento Lógico é verdadeiro. Aristóteles já dizia que, qualquer enunciado ou raciocínio falso que simula a veracidade é um sofisma, ou seja, uma falácia.

Por outro lado, o racionalismo é a corrente filosófica que (também) faz uso da Lógica para extrair conclusões. Contudo, essa galera aí prioriza a razão como o meio para encontrar a verdade.

O Racionalismo, como o nome sugere, vai priorizar a razão em detrimento da experiência. Portanto, todo o cosmos deve então ser passível de compreensão, ou seja, inteligível. Ainda que não podemos demostrar empiricamente algo, não significa (para os racionalistas) que esse algo não seja verdade.

O método utilizado por esses caras é a dedução, que consiste em uma análise lógica dos argumentos, elencando premissas afim de chegar a uma conclusão. A conclusão torna explícito um conhecimento já existente nas premissas.

kant e a metafísica
Figura 6. Immanuel Kant, revolucionou a discussão entre Racionalismo e Empirismo ao propor uma alternativa a essa “treta”. Talvez você já tenha escutado que Kant teria matado a Metafísica. “Véi”, maior viagem isso aí. O que Kant quis dizer é que não é possível apreender as “paradas” em si mesmas. Isto é, para alcançar a realidade não basta a própria realidade, mas a interpretação que os nossos sentidos fazem da realidade que nos cerca. (#MINDBLOWING)

Bom, não há nada de muito inédito nesse embate entre Racionalismo e Empirismo, visto que, já podemos ver isso naquela discussão entre Platão e seu pupilo Aristóteles. Platão (racionalista) falava sobre a existência de um Mundo das Ideias e que a Razão nos aproximava dele. Já Aristóteles era o cara que falava sobre a experiência e de como devemos conhecer o mundo a partir de nossos sentidos.

Por fim, a Metafísica na Modernidade é “ligadona” em entender as possibilidades do conhecimento. Surgiram dessa “brisa” várias correntes filosóficas que moldaram a maneira que entendemos o mundo. As teorias derivadas disso aí inspiraram desde nossos costumes até viagens no tempo!

Agora que você já está por dentro dos “paranauês” da Modernidade e da Metafísica, bora lá testar seus conhecimentos!

1) (UNESP 2013)

A modernidade não pertence a cultura nenhuma, mas surge sempre CONTRA uma cultura particular, como uma fenda, uma fissura no tecido desta. Assim, na Europa, a modernidade não surge como um desenvolvimento da cultura cristã, mas como uma crítica a esta, feita por indivíduos como Copérnico, Montaigne, Bruno, Descartes, indivíduos que, na medida em que a criticavam, já dela se separavam, já dela se desenraizavam. A crítica faz parte da razão que, não pertencendo a cultura particular nenhuma, está em princípio disponível a todos os seres humanos e culturas. Entendida desse modo, a modernidade não consiste numa etapa da história da Europa ou do mundo, mas numa postura crítica ante a cultura, postura que é capaz de surgir em diferentes momentos e regiões do mundo, como na Atenas de Péricles, na Índia do imperador Ashoka ou no Brasil de hoje.

(Antonio Cícero. Resenha sobre o livro “O Roubo da História”. Folha de S. Paulo, 01.11.2008. Adaptado)

Com a leitura do texto, a modernidade pode ser entendida como

(A) uma tendência filosófica especificamente europeia e ocidental de crítica cultural e religiosa.
(B) uma tendência oposta a diversas formas de desenvolvimento da autonomia individual.
(C) um conjunto de princípios morais absolutos, dotados de fundamentação teológica e cristã.
(D) um movimento amplo de propagação da crítica racional a diversas formas de preconceito.
(E) um movimento filosófico desconectado dos princípios racionais do iluminismo europeu.

2) Enem (2013)

TEXTO I

“Há já algum tempo eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos, recebera muitas falsas opiniões como verdadeiras, e de que aquilo que depois eu fundei em princípios tão mal assegurados não podia ser senão mui duvidoso e incerto. Era necessário tentar seriamente, uma vez em minha vida, desfazer-me de todas as opiniões a que até então dera crédito, e começar tudo novamente a fim de estabelecer um saber firme e inabalável.” (DESCARTES, R. Meditações concernentes à Primeira Filosofia. São Paulo: Abril Cultural, 1973) (adaptado).

TEXTO II

“É o caráter radical do que se procura que exige a radicalização do próprio processo de busca. Se todo o espaço for ocupado pela dúvida, qualquer certeza que aparecer a partir daí terá sido de alguma forma gerada pela própria dúvida, e não será seguramente nenhuma daquelas que foram anteriormente varridas por essa mesma dúvida.” (SILVA, F. L. Descartes: a metafísica da modernidade. São Paulo: Moderna, 2001). (adaptado).

A exposição e a análise do projeto cartesiano indicam que, para viabilizar a reconstrução radical do conhecimento, deve-se:

(A) retomar o método da tradição para edificar a ciência com legitimidade.

(B) questionar de forma ampla e profunda as antigas ideias e concepções.

(C) investigar os conteúdos da consciência dos homens menos esclarecidos.

(D) buscar uma via para eliminar da memória saberes antigos e ultrapassados.

(E) encontrar ideias e pensamentos evidentes que dispensam ser questionados.

3) (UEL)

Leia o texto a seguir.

A razão humana, num determinado domínio dos seus conhecimentos, possui o singular destino de se ver atormentada por questões, que não pode evitar, pois lhe são impostas pela sua natureza, mas às quais também não pode dar respostas por ultrapassarem completamente as suas possibilidades.

(KANT, I. Crítica da Razão Pura (Prefácio da primeira edição, 1781). Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, p. 03.)

Com base no texto e nos conhecimentos sobre Kant, o domínio destas intermináveis disputas chama-se

(A) experiência.
(B) natureza.
(C) entendimento.
(D) metafísica.
(E) sensibilidade.

GABARITO

1. D, 2. E, 3. D.

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva