História dos negros no Brasil

A presença negra na América é quase tão antiga quanto a dos europeus, mas se fala muito mais da contribuição dos segundos do que dos primeiros. Neste texto tentaremos traçar uma breve história dos negros no Brasil.

Mão de obra-escravizada. Mercadoria. Ignorantes, amaldiçoados e inferiores. Favelados, catadores e serviçais. Se o negro que alcança o sucesso financeiro e social é, infelizmente, a exceção no Brasil atual, que dirá em outros tempos. Porém, isso não foi por falta de vontade, mas sim por conta de uma estrutura social racista cujos reflexos perduram até os dias de hoje. Nesta aula veremos rapidamente a história dos negros no Brasil e seu histórico de luta e resistência.

Em média, metade da atual população brasileira é negra, mas estas pessoas ainda são a minoria em escolas, universidades e empregos qualificados. Os territórios que habitam, em sua maioria, são comunidades com pouco acesso a recursos públicos e permeadas por diversas violências. Todos esses elementos são explicados historicamente.

Desde o início do século XVI, africanos eram trazidos para a América na condição de escravizados. Esse movimento só foi aumentando com o passar dos séculos conforme a escravização de indígenas se tornava cada vez mais difícil. Chegou um momento em que o tráfico de escravizados tornou-se tão lucrativo quanto as atividades em que eles eram empregados.

Um dos motivos pelos quais essa situação foi se alterando foi pela pressão britânica, que não tinha interesse em concorrer com nações escravocratas que pudessem vir a se industrializar. Tanto aqui como nos Estudos Unidos e em outras regiões da América, a escravidão foi abolida em lei, mas a população negra não foi incluída nas instituições públicas e teve de viver nas periferias ocupando os piores empregos ofertados. Tal cenário só veio se modificando nas últimas décadas.

Escravidão nos tempos coloniais e no Império

A motivação para se trazer africanos encarcerados do outro lado do Atlântico para o continente americano foi por razões econômicas. O mundo ocidental vivia o mercantilismo (fase inicial do capitalismo) e a ordem social era acumular o máximo de riquezas possível com o menor custo.

Por isso, pagar trabalhadores para fazer o trabalho braçal estava fora de cogitação para os europeus, que preferiram investir no comércio de pessoas escravizadas. O próprio fato de se realizar trabalhos braçais era motivo de vergonha e não de orgulho. Logo, esse tipo de atividade foi deixada para aqueles que menos tinham direitos naquele período.

História dos negros no Brasil
Imagem 1: Carregadores de Café A Caminho da Cidade, 1826, Jean-Baptiste Debret . Fonte: https://bit.ly/2L0pQT9

Aprende-se na escola que os ciclos econômicos do Brasil foram a extração do pau-brasil, a produção de açúcar canavieiro, a mineração, o cultivo do café e o ciclo da borracha. Em quase todos esses setores a mão de obra negra foi empregada, fora outras atividades econômicas secundárias na história do país. A construção do Brasil está inerentemente ligada ao trabalho de africanos e seus descendentes.

República e a segregação

Em 1822, o Brasil tornou-se império, e a escravidão continuou. Ela era a base da economia latifundiária, mas foi sofrendo um processo de abolição gradual. A sustentação política da monarquia estava tão ligada aos latifundiários que apenas um ano depois da abolição foi proclamada a república brasileira. Apesar disso, muitos donos de escravizados não perderam trabalhadores, pois como muitos negros não tinham propriedades nem seriam contratados em novos empregos, continuaram a trabalhar por teto e comida nas fazendas dos seus antigos senhores.

No novo regime a escravidão continuava abolida, mas não existia uma proposta de inclusão para a população negra. Muitos que resolveram se mudar para as cidades passaram a morar nas ruas e, na melhor das hipóteses, em cortiços. Poucos conseguiam abrir negócios, e a maioria trabalhava em empregos não qualificados que não exigiam nenhum tipo de instrução.

Como a maioria era analfabeta e outros tantos tinham pendências com as leis, não podiam votar nem se candidatar. Muitas mulheres negras continuaram a realizar trabalhos domésticos nas casas de famílias brancas, atividade exercida desde os tempos coloniais e existente até os dias de hoje.

Nas primeiras décadas do século XX, o Brasil viveu intensas transformações urbanas com as políticas de higienização. Foram construídas calçadas, avenidas, instalados bondes, importados pardais franceses, entre tantas outras modificações com o intuito de tornar o Brasil um pouco mais “europeu”. Acompanhado disso vieram as demolições de cortiços, proibição da circulação de pessoas sem sapatos nos centros das cidades e combate ao comércio de rua. A população pobre e negra que vivia nos centros das cidades passou a habitar regiões desocupadas, na beira de morros. Esse foi o início do surgimento das favelas em diversas cidades brasileiras.

Imagem 2: Foto de um cortiço no início do século XX no Rio de Janeiro. Crédito: Augusto Malta/Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro
Veja esta aula de Eduardo Bueno sobre o surgimento das favelas

Na década de 1930 surgiu a Frente Negra Brasileira, movimento que tornou-se partido, mas poucos anos depois acabou extinto. Há um retorno mais acentuado da ação política organizada da população negra na década de 60, mesmo período em que há a luta por direitos civis nos Estados Unidos. Porém, neste mesmo período, instalava-se no Brasil uma ditadura militar que não tolerava a atuação de movimentos sociais, sobretudo oriundos da base da sociedade.

No fim da década de 70, quando o regime autoritário já dava sinais de fraqueza, surge o Movimento Negro Unificado no estado de São Paulo. Diversos outros movimentos sociais passaram a apoiar o MNU, e a instituição começou a denunciar diversos casos de racismo em instituições de ensino, presídios e em outros ambientes da vida cotidiana.

No Brasil do início dos anos 200, ocorreram diversas outras conquistas para a população negra. Dentre elas podemos destacar as leis 10.639/03 e 11.645/08, que obrigam o estudo da cultura africana, afrodescendente e indígena nos currículos escolares, conquista advinda da pressão de movimentos sociais negros como o MNU.

Também deve-se mencionar a política de ações afirmativas (as conhecidas cotas) que são concebidas como meio de transformação da realidade dessa população: através da formação acadêmica, a população negra, que por tanto tempo viveu em desvantagem, tem maiores chances de ocupar cargos que lhes foram historicamente vetados. A inclusão cidadã da população negra no Brasil, com base nos dados estatísticos ainda não é completa e isso se deve, principalmente, ao seu movimento tardio.

Lideranças e representantes negros na história do Brasil

Ao longo da história dos negros no Brasil podemos destacar diversos nomes de lideranças que contribuíram para modificar a situação de desigualdade social na história do nosso país. Algumas delas são:

Luís Gama – Jornalista, advogado autodidata e abolicionista nos tempos de Império. Acredita-se que tenha atuado pela libertação de pelo menos quinhentos escravizados.

Antonieta de Barros – Primeira deputada negra do Brasil. Eleita no estado de Santa Catarina, também era uma professora de língua portuguesa muito reconhecida. Antonieta lutou pela inclusão da população pobre e negra em Florianópolis através da educação.

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Imagem 3: Antonieta de Barros, a primeira mulher negra a entrar para a política formal no Brasil. Fonte: http://twixar.me/D2L1

João Cândido – Também conhecido como Almirante Negro, foi o principal líder da Revolta da Chibata, movimento de contestação de marinheiros no Rio de Janeiro realizado em 1910 contra a discriminação e castigos aplicados à militares negros.

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Imagem 4: Retrato de João Cândido, o conhecido Almirante Negro, líder dos marinheiros negros durante a Revolta da Chibata. Fonte: http://twixar.me/D2L1

Djamila Ribeiro – Mestra em Filosofia Política, é atualmente uma acadêmica brasileira e negra reconhecida internacionalmente pelo seu trabalho. Djamila pesquisa e atua questionando relações raciais e de gênero. Já apresentou trabalhos em universidades mundialmente reconhecidas nos Estados Unidos e na França.

Assista à essa aula do Canal Futura sobre Antonieta de Barros, primeira deputada negra brasileira

Para finalizar sua revisão, veja esta videoaula sobre a história dos negros no Brasil:

Exercícios:

Questão 01 – (UNIFOR CE)

A “Revolta da Chibata” foi um importante movimento social ocorrido no Brasil, no início do século XX. Analise as afirmativas a seguir.

I. Ocorreu na região cacaueira da Bahia, em virtude os maus tratos a que os negros eram constantemente submetidos, mesmo após a abolição da escravidão no Brasil.

II. Teve como estopim a morte de um ex-escravo que fora condenado a 250 chibatadas, em uma praça pública da Cidade de Salvador, por haver roubado um pão.

III. Ocorreu na marinha brasileira, na Cidade do Rio de Janeiro, em 1910, por conta da prática de se punir as faltas graves dos marinheiros com, pelo menos, 25 chibatadas.

IV. Foi encabeçada pelo líder negro Zumbi dos Palmares, que foi preso e acabou morrendo misteriosamente durante sua transferência de Salvador para o Rio de Janeiro.

V. Foi liderada pelo marinheiro João Cândido (conhecido como o “Almirante Negro”), que foi preso, expulso da marinha e internado no Hospital dos Alienados.

Marque a opção CORRETA:

a) São verdadeiras as afirmativas I e II.

b) São verdadeiras as afirmativas I, II e IV.

c) São verdadeiras as afirmativas III e V.

d) São verdadeiras as afirmativas II e IV apenas.

e) São verdadeiras as afirmativas I e IV apenas.

 

Questão 02 – (UNIOESTE PR)

FONTE 1:

Existe muita coisa que não te disseram na escola

Cota não é esmola!

Experimenta nascer preto na favela pra você ver!

O que rola com preto e pobre não aparece na TV

Opressão, humilhação, preconceito

A gente sabe como termina, quando começa desse jeito

Desde pequena fazendo o corre pra ajudar os pais

Cuida de criança, limpa casa, outras coisas mais

Deu meio dia, toma banho vai pra escola a pé

Não tem dinheiro pro busão

Sua mãe usou mais cedo pra poder comprar o pão

E já que tá cansada quer carona no busão

Mas como é preta e pobre, o motorista grita: não!

[…]

O tempo foi passando e ela foi crescendo

Agora lá na rua ela é a preta do sovaco fedorento

Que alisa o cabelo pra se sentir aceita

Mas não adianta nada, todo mundo a rejeita

Agora ela cresceu, quer muito estudar

Termina a escola, a apostila, ainda tem vestibular

E a boca seca, seca, nem um cuspe

Vai pagar a faculdade, porque preto e pobre não vai pra USP

Foi o que disse a professora que ensinava lá na escola

Que todos são iguais e que cota é esmola

Cansada de esmolas e sem o din da faculdade

Ela ainda acorda cedo e limpa três apê no centro da cidade

Experimenta nascer preto, pobre na comunidade

Cê vai ver como são diferentes as oportunidades

E nem venha me dizer que isso é vitimismo

Não bota a culpa em mim pra encobrir o seu racismo!

E nem venha me dizer que isso é vitimismo […]

FERREIRA, Bia. Cota não é esmola.

Disponível em: https://www.letras.mus.br/bia-ferreira/cota-nao-esmola/

 

FONTE 2:

Os troncos, bacalhaus (chicotes) e outros instrumentos de tortura alimentam as fogueiras, em redor das quais os novos cidadãos entregam-se ao mais delirante batuque.

Charge de Agostini, publicada na “Revista Ilustrada” em maio de 1888 In: http://novo.mgquilombo.com.br/artigos/pesquisas-esco-lares/abolicao-como-foi-a-libertacao-dos-es-cravos-em-minha-cidade/ (sem data de postagem). Acesso em: 10 ago. 2018

Preste bastante atenção nas fontes 1 e 2. Na primeira, vemos um trecho de “Cota não é esmola”, música composta por Bia Ferreira e lançada em 2018. Na sequência, uma arte do famoso chargista, Agostini, de maio de 1888, em um contexto marcado pelo processo de abolição jurídica da escravatura (a chamada “Lei Áurea”, de 13 de maio).

A distância temporal entre a data de lançamento da música e de publicação da charge é imensa, cobrindo todo o período, o qual em nosso país se comemora o dia da “libertação” de negros e negras escravizadas. Ocorre, contudo, que tal distância não tem servido historicamente para que esses seres humanos deixem de ser alvos constantes de violência, criminalização e, particularmente, racismo. Pelo contrário, são séculos e séculos de opressão. Neste sentido, pouco (ou quase nada) temos a “comemorar”.

Tendo por referência as duas fontes acima e os problemas históricos que envolvem o tema da “abolição da escravatura” no Brasil, é CORRETO afirmar que

a) a alegria dos negros em roda, representada pela fonte 2, ilustrou perfeitamente a conquista definitiva da tão sonhada libertação, cujos reflexos são sentidos em nosso tempo presente através da eliminação do racismo.

b) o processo histórico, que chamamos de “abolição da escravatura” não pode ser reduzido simplesmente a uma data, a uma personagem ou à promulgação de uma lei jurídica, pois trata-se de uma luta histórica de negros e negras contra quaisquer formas de opressão, tanto no passado como no presente.

c) em “Cota não é esmola” (fonte 1), fica evidenciada na letra da canção uma posição firme e combativa em defesa das comunidades indígenas, como se pode constatar no verso “Experimenta nascer preto, pobre na comunidade / Cê vai ver como são diferentes as oportunidades”.

d) a distância temporal de 130 anos que separa a charge de Agostini (1888) da letra da canção de Bia Ferreira (2018) corresponde a um período histórico marcado por um conjunto expressivo de políticas educacionais voltadas à formação de gerações de jovens sem preconceitos ou discriminações raciais.

e) não há qualquer relação histórica entre as mensagens das fontes 1 e 2, na medida em que cada uma delas fala de um Brasil completamente diferente – ou seja, a alegria dos negros em roda na charge do século XIX em comemoração ao fim do racismo contrasta bastante com a crítica e a rebeldia da canção.

 

Questão 03 – (UFGD MS)

Leia este trecho do poema Navio Negreiro (1883), de Castro Alves.

III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!

Desce mais … inda mais… não pode olhar humano

Como o teu mergulhar no brigue voador!

Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras!

É canto funeral! … Que tétricas figuras! …

Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco… o tombadilho

Que das luzernas avermelha o brilho.

Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros… estalar de açoite…

Legiões de homens negros como a noite,

Horrendos a dançar…

Disponível em: <http://www.culturabrasil.org/navionegreiro.htm>.

Acesso em: 20 ago. 2018.

Ao longo da história, ocorreram movimentações de contingentes humanos no Brasil, que influenciaram a formação social, política e econômica do território e da população brasileiros. Assinale a alternativa correta que denomina a classificação do movimento populacional intenso e involuntário de parte considerável da população de um território que é forçada (muitas vezes, com violência) a se dispersar para outros territórios, a exemplo do tráfico de milhões de africanos que foram trazidos de forma violenta, degradante e involuntária para o trabalho escravo, ocorrido no Brasil, entre os séculos XVI e XIX.

a) Diáspora.

b) Migração pendular.

c) Migração interna.

d) Evacuação.

e) Êxodo rural.

 

01- Gab: C

02- Gab: B

03- Gab: A

Sobre o(a) autor(a):

Os textos acima foram preparados pelo professor Angelo Antônio de Aguiar. Angelo é graduado em história pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestrando em ensino de história na mesma instituição e dá aulas de história na Grande Florianópolis desde 2016.