A formação do povo brasileiro: história e miscigenação

A identidade do povo brasileiro foi formada por 3 matrizes étnicas: o colonizador branco, os índios e os negros africanos. Veja a história da miscigenação desses povos!

Quando estudamos a população brasileira, devemos considerar a sua formação e diversidade étnico-cultural, os principais períodos de movimentação populacional, além das correntes migratórias internas e internacionais. Nesta aula, iremos abordar as origens e primeiros momentos da formação do povo brasileiro e as suas matrizes étnicas.

Composição étnica do Brasil

Embora já existissem diferentes povos no atual território brasileiro há alguns milhares de anos, a população do Brasil como conhecemos começou a ser formada após a chegada dos portugueses. Ela é composta, principalmente, a partir de povos nativos ou indígenas, africanos e europeus.

A maior parte dos africanos tinha origem etnolinguística banto e iorubá. Os europeus vieram principalmente de Portugal e, em menor quantidade, de outros países que se lançaram aos mares no período das grandes navegações.

O Brasil é um dos países mais miscigenados do mundo e essa diversidade resulta da contribuição de vários povos na formação de uma identidade. Entre esses povos estão, nos primeiros momentos:

  • os indígenas;
  • os primeiros colonizadores (portugueses) e imigrantes (franceses, ingleses, holandeses, entre outros);
  • e os africanos, vindos principalmente de áreas situadas nos atuais territórios de Angola, Moçambique e Nigéria, na África, em um processo de migração forçada para abastecer o comércio de escravos negros no Brasil.

Contudo, a partir de meados do século XIX, a formação da população brasileira teve influência de muitos outros povos que imigraram para o país buscando melhores condições de vida.

Assim, temos como exemplo os europeus, como italianos, espanhóis, alemães e poloneses; os asiáticos vindos do Japão e, entre outros, de países do Oriente Médio; os latino-americanos, vindos principalmente da Bolívia, Chile, Venezuela e Haiti; além de africanos provenientes, na sua maioria, de Moçambique, Guiné-Bissau, Guiné, Angola, Cabo Verde, Senegal, Gana e República Democrática do Congo.

A formação do povo brasileiro segundo Darcy Ribeiro

Darcy Ribeiro (1922-1997), antropólogo, escreveu uma das obras mais importantes para a compreensão a formação étnica e cultural do povo brasileiro. Seu ensaio histórico-antropológico foi intitulado “O Povo Brasileiro – A formação e o sentido do Brasil” e editado em 1995.

Nessa obra, Ribeiro buscou responder à pergunta “por que o Brasil não deu certo?”, pesquisando sobre a formação do povo brasileiro. Em seu estudo, defendeu que a miscigenação foi um fator fundamental para a diversidade que caracteriza o Brasil.

Formação do povo brasileiro - Dary Ribeiro
Capa de “O Povo Brasileiro – A formação e o sentido do Brasil”, de Darcy Ribeiro, com uma imagem que é parte do quadro “Operários”, de Tarsila do Amaral.

De acordo com o autor, o que define um povo é o conjunto de características que faz dele um grupo identitário. É o que o torna, portanto, diferente de outros grupos. Então, as três matrizes étnicas que teriam formado a identidade do povo brasileiro seriam: o colonizador branco (os portugueses), os índios e os negros africanos.

O antropólogo também cunhou o termo “Nova Roma” para classificar o que seria o Brasil nesse processo de formação do povo brasileiro, através da desconstrução dessas três matrizes. No entanto, a “Nova Roma” tropical teria sido formada, lamentavelmente, “lavada em sangue índio e negro”.

Essa é uma referência ao genocídio de aproximadamente 6 milhões de índios que aqui viviam e às mortes de mais de 12 milhões de negros – considerando-se que o Brasil foi o país que mais recebeu africanos escravizados, em condições extremamente desumanas. E tudo isso, segundo Ribeiro, para enriquecer a metrópole com açúcar, ouro e demais riquezas dessas terras.

Indígenas e europeus

O “cunhadismo” foi o modo como os tupinambás introduziram estranhos à sua sociedade. Isso porque, na época da colonização, a união com cônjuges não índios podia acarretar diferentes formas de inclusão e adaptação social dos indígenas. Poderia até mesmo causar a redefinição da condição étnica, social e civil da prole.

Em São Paulo, onde a captura de índios para serem tornados escravos tornou-se a principal atividade econômica, teve início essa miscigenação através do cunhadismo. Assim, surgiram os brasilíndios ou mamelucos. Segundo Darcy Ribeiro, formavam um povo que não era índio e nem português, que foi primordial na formação étnica do brasileiro e na ocupação e expansão territorial do país.

Além disso, dos brasilíndios paulistas é que teriam surgido os bandeirantes, que atuavam na captura de escravos fugitivos, aprisionamento de indígenas e na procura de pedras e metais preciosos pelo interior do Brasil.

Os diferentes Brasis

Um traço particular da formação do povo brasileiro, mesmo com toda essa mestiçagem, seria a presença grandes grupos socioculturais que, embora distintos, se complementariam. Por isso, ele classificou os grupos socioculturais da seguinte forma:

  • Brasil crioulo: do litoral de São Luís ao Rio de Janeiro, muito influenciado pela África.
  • Brasil caboclo: a região Norte, com a Amazônia e os índios.
  • Brasil sertanejo: sertão nordestino e a caatinga.
  • Brasil caipira: Centro-Oeste e Sudeste, sob influência da metrópole paulistana.
  • Brasil sulino: mamelucos vivendo em uma área muito rica e fértil, os pampas gaúchos, e com forte interferência europeia.

Diferentemente de Gilberto Freyre (1900-1987), que acreditava que a miscigenação daqui teria o poder de corrigir a distância social entre a “casa grande e a senzala”, Ribeiro não via na mestiçagem, por si só, uma possibilidade de “democracia racial”.

Para existir a democracia racial, segundo ele, precisaríamos viver numa democracia social, reduzindo as grandes desigualdades entre as classes ricas e as pobres e a desumanização das relações de trabalho.

As três matrizes étnicas da formação do povo brasileiro

Como já vimos acima, a chegada dos colonizadores portugueses ao Brasil e a implantação de atividades econômicas na colônia levaram os europeus a explorar a mão de obra nativa.

Anos mais tarde, escravos trazidos da África substituíram essa mão de obra. Assim, coabitaram em nosso território três povos distintos: os indígenas, os africanos e os europeus. Eles compõem juntos as principais matrizes formadoras da cultura do país, influenciando as tradições, os valores e o modo de vida do povo brasileiro.

Formação do povo brasileiro - O casamento
O Casamento, quadro de 1940, pintado por Tarsila do Amaral. A obra retrata a diversidade étnica da população brasileira, com a miscigenação de europeus, africanos e indígenas na concepção de população. Fonte: https://bit.ly/3hGWpnv

Os indígenas

Estima-se que em 1500 algo entre 1 milhão e 6,8 milhões de nativos, pertencentes a várias etnias, habitavam o atual território brasileiro. As maiores populações, ocupando grandes extensões, eram das etnias Jê e Tupi-Guarani.

Desde então, um intenso genocídio reduziu drasticamente essa população. As principais causas foram as doenças trazidas pelos europeus e as guerras e resistências frente aos colonizadores. Muitos povos sofreram também com o etnocídio ao adotarem hábitos dos colonizadores, como língua, religião e os modos de vida em geral.

Atualmente, a população indígena no Brasil é de aproximadamente 897 mil pessoas, correspondendo a cerca de 0,47% da população brasileira. Muitas de suas comunidades indígenas vivem em reservas indígenas. Na Amazônia Legal, cada vez ameaçada por interesses econômicos, vive hoje em torno de 60% da população indígena do nosso país.

Os africanos

Entre 1532 e 1850, mais de quatro milhões de africanos foram trazidos de modo forçado para serem escravizados e tiveram sua entrada registrada nos portos nacionais. No entanto, é possível que um grande número de africanos não tenha sido registrado oficialmente e que o tráfico negreiro tenha sido ainda maior.

Mas sabe-se que muitos outros não sobreviveram às péssimas condições dos navios e acabaram falecendo durante a travessia intercontinental. A maioria era proveniente do golfo de Benin e das regiões que atualmente compreendem os territórios de Angola (ao sul do continente, costa ocidental) e Moçambique (também ao sul, mas na costa oriental).

Em terras brasileiras, por lei, os escravos eram propriedades e não tinham direitos. Da mesma forma, não podiam possuir ou doar bens e nem iniciar processos judiciais. Por outro lado, estavam sujeitos a castigos e punições. Mas não eram todos os escravos que aceitavam as condições pelas quais estavam submetidos.

Assim, fugas, resistências e revoltas foram frequentes durante todo o longo período da escravidão no Brasil. Centenas de “quilombos”, dos mais variados tipos, tamanhos e durações foram organizados. Eles eram criados por escravos negros que fugiam e procuravam ali reconstruir suas tradicionais formas de associação política, social, cultural e de parentesco.

A escravidão foi abolida no Brasil apenas no ano de 1888, último país do continente americano a finalizar esse tipo de regime. Todavia, a falta de quaisquer políticas para essa população causou uma enorme desigualdade que persiste até os nossos dias.

Os negros na atual composição da população brasileira

Atualmente, cerca de 56,10% da população brasileira se autodeclara negra (pretos ou pardos) no Brasil. Embora representem mais da metade da população, negros e negras são a maior parte entre aqueles que não têm emprego ou estão subocupados.

Também são a maioria entre as vítimas de homicídio e compõem mais de 60% da população carcerária do país. Os resquícios da escravidão também persistem nas diversas manifestações que o racismo assume em nosso país.

No ano de 2019, pela primeira vez, os negros passaram a ser maioria no ensino superior público do Brasil. Ainda assim, são minoria nas posições de liderança no mercado de trabalho e entre representantes nos três poderes.

Em seguida, você vê um infográfico comparando dados da força de trabalho de brancos e negros ou pardos. O infográfico foi produzido pela Agência Lupa.

Os europeus

Entre as correntes migratórias livres, a mais importante é, sem dúvida, a portuguesa. Uma grande quantidade de pessoas migrou de Portugal para o Brasil desde a colonização até as últimas décadas, espalhando-se por todo o território nacional.

Até o ano de 1883, a segunda maior corrente migratória livre, foi a italiana; a terceira, a alemã; e a quarta, a espanhola. A partir de 1850, a expansão dos cafezais pelo Sudeste e as políticas de colonização da região sul levaram o governo a criar medidas de incentivo à vinda de imigrantes europeus para substituir a mão de obra escravizada.

Muitas vezes, esses imigrantes eram seduzidos por propostas enganosas e já chegavam aqui endividados, o que ficou conhecido como “escravidão por dívida”. Por fim, na região Sul, os imigrantes (portugueses, italianos, alemães, entre outros) frequentemente ganhavam a propriedade da terra, onde fundaram diversas colônias de povoamento.

Para chegar ainda mais preparado no Enem, estude com esta videoaula do canal Careca de Saber! Em seguida, resolva os exercícios propostos.

Exercícios sobre a formação do povo brasileiro:
1- (Enem-2015)

A língua de que usam, por toda a costa, carece de três letras; convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei, e dessa maneira vivem desordenadamente, sem terem além disto conta, nem peso, nem medida.

GÂNGAVO, P M. A primeira história do Brasil: história da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2004 (adaptado)

A observação do cronista português Pero de Magalhães de Gândavo, em 1576, sobre a ausência das letras F, L e R na língua mencionada, demonstra a

a) simplicidade da organização social das tribos brasileiras.

b) dominação portuguesa imposta aos índios no início da colonização.

c) superioridade da sociedade europeia em relação à sociedade indígena.

d) incompreensão dos valores socioculturais indígenas pelos portugueses.

e) dificuldade experimentada pelos portugueses no aprendizado da língua nativa.

2- (Unesp-2015-2)

De acordo com Darcy Ribeiro, dois movimentos caminharam concomitantemente ao longo do processo de formação do povo brasileiro:

a) a produção de uma unidade étnica nacional e a conformação de uma cultura nacional homogênea.

b) a produção de uma sociedade nacional multiétnica e a coexistência de culturas regionais em extinção.

c) a produção de uma sociedade nacional multiétnica e a conformação de culturas regionais transplantadas de outros países.

d) a produção de uma unidade étnica nacional e a conformação de diversidades socioculturais regionais.

e) a produção de uma sociedade nacional multiétnica e a coexistência de culturas regionais fragmentadas.

3- (UNICENTRO)

“Quando se menciona o trabalho escravo no Brasil, a primeira lembrança é a da escravidão negra. Realmente, foi ela a mais marcante, a mais longa e terrível; mas o trabalho escravo se inicia no Brasil com a escravidão indígena”

(Tomazi, Nelson Dácio (coordenador). Iniciação à Sociologia. São Paulo: Atual, 2000, p.62).

Considerando a realidade estabelecida pela implantação do trabalho escravo dos negros africanos trazidos ao Brasil, assinale a alternativa incorreta.

a) As condições de vida dos escravos africanos eram terríveis, razão pela qual a média de vida útil deles não ultrapassava os quinze anos.

b) Os negros africanos reagiram à escravidão das mais diversas formas: através das fugas, dos quilombos, da luta armada, da preservação dos cultos religiosos, da dança, da música.

c) O negro é parte integrante da história brasileira, apesar dos muitos preconceitos que ainda persistem contra eles.

d) O Brasil figura entre os primeiros países latino-americanos a declarar por meio de muitas leis, até a promulgação da lei áurea, a libertação de seus escravos.

e) O fim do tráfico de escravos, no Brasil, ocorreu em meados do século XIX, quando começaram algumas experiências com a mão de obra assalariada de estrangeiros.

Referências:

CASTELLAR, Sônia; Maria Vanzella; CASTELLAR, Ana Paula Gomes Seferian. Projeto Athos: geografia (7º ano). São Paulo: FTD, 2014.

Geledés. A história da escravidão negra no Brasil. . Acesso em: 20/05/2020.

LUCCI, Elian Alabi; BRANCO, Anselmo Lazaro; MENDONÇA, Cláudio. Território e sociedade no mundo globalizado, Geografia geral e do Brasil, volume único. São Paulo: Saraiva, 2014.

Justificando. A busca por uma nova Roma dos trópicos. Acesso em: 20/05/2020.

Nova Escola. As origens dos negros no Brasil. Acesso em: 20/05/2020.

RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro – A formação e o sentido do Brasil. 3. ed. São Paulo: Global Editora, 2015. 368p.

SENE, Eustáquio de; MOREIRA, João Carlos. Geografia geral do Brasil, volume 3: espaço geográfico e globalização: ensino médio. 3. ed. São Paulo: Scipione, 2016.

Vestibular UOL. Darcy Ribeiro e ‘O Povo Brasileiro’ – obra ainda é chave para entender a formação étnica e cultural do Brasil. Acesso em: 20/05/2020.

Sobre o(a) autor(a):

O texto acima foi preparado pelo professor João Marcelo Vela para o Curso Enem Gratuito. João é licenciado e mestre em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Dá aulas de Geografia e Filosofia em escolas da Grande Florianópolis desde 2015, além de atuar como articulador de Ciências Humanas. E-mail para contato: [email protected]