O que a Filosofia estuda

O que a Filosofia estuda é uma questão que causa muita curiosidade. Vem pra essa aula entender o que metafísica, política, ética, estética e outros problemas abordados pela disciplina!

Os problemas da Filosofia

Se você acha que tem problemas, não imagina quantos problemas tem a Filosofia! Inclusive, essa problemática disciplina gosta de compartilhar suas aflições nas provas do Enem. Para não ser pego surpresa, chega mais e vem compreender o que a Filosofia estuda.

Desde que a Filosofia surgiu no século VI a.C. até o presente, muita coisa despertou a atenção dos filósofos. Mas, dentre um emaranhado de temas, algumas problemáticas tendem a se destacar, como veremos ao longo desta aula de Filosofia para o Enem.

O filósofo, enquanto sujeito pensante, é uma pessoa questionadora cheia de perguntas sobre o mundo que o cerca. Mas, provavelmente, a questão mais importante para quem estuda Filosofia seja: “o que é isto?” Essa simples pergunta, que pode até parecer um tanto tola, foi o que deu origem a importantes descobertas da humanidade. Perguntar o que é algo é problematizar esse algo. Os filósofos se questionavam tanto que se perguntam até mesmo o que é a própria Filosofia!

Mas, antes de continuarmos falando dos principais problemas que preocupam os filósofos, talvez se faça necessária uma rápida inflexão para entender o que exatamente a Filosofia estuda.

O que a Filosofia estuda?

Nos primórdios da civilização ocidental, surgiu lá na Grécia essa tal de Filosofia, cujo foco era desvendar os mistérios do mundo. Através da Filosofia, os primeiros filósofos tentavam desvincular a mitologia da razão.

Sendo assim, a Filosofia surge como uma linha de pensamento que busca compreender o mundo. Ora, os problemas mundanos são parte desse mundo. Logo, todo problema mundano pode, essencialmente, ser um problema filosófico. Contudo, reserva-se à Filosofia os problemas mais requintados.

Metafísica

Lá no século VI a.C., a principal preocupação dos estudos filosóficos dizia respeito à cosmologia. Essa área da Filosofia se interessava principalmente em estudar o que é o universo, preocupando-se com a sua origem e com sua evolução.

Aqueles a quem hoje chamamos de primeiros filósofos eram fissurados em descobrir a essência do nosso universo. Eles se perguntavam: do que é feito esse mundo em que vivemos? E as propostas deles para explicar o mundo iam desde as mais rudimentares, como os elementos (água, ar, fogo, etc) até as mais sofisticadas. Um exemplo é a elaboração dos filósofos Leucipo e Demócrito. Há aproximadamente 2400 anos, eles disseram que tudo é feito de umas partículas indivisíveis, chamadas átomos.

Esses caras, a quem chamamos de pré-socráticos, tentaram durante um bom tempo resolver os problemas da cosmologia. Assim, na medida do possível, tudo ia bem na Grécia. Até chegar um tal de Sócrates. Com esse grande filósofo, as perguntas (e as respostas) mudaram de foco.

O que estuda a Filosofia - charge sobre Sócrates
Imagem 1: Sócrates talvez seja o filósofo mais conhecido por todos. Sem dúvida alguma foi um dos mais polêmicos. Isso se deve ao fato dele consolidar um dos principais fundamentos da Filosofia: a dúvida!

Da cosmologia à ontologia

Nos diálogos platônicos, é possível ver Sócrates utilizar o método maiêutico para buscar respostas dos problemas que assolavam a vida dos cidadãos da polis. Nesse momento, começou, ainda que lentamente, uma troca do foco das investigações filosóficas. A cosmologia passou ser, aos poucos, deixada de lado em detrimento a ontologia.

Entendemos por ontologia a parte da Filosofia que estuda as propriedades mais gerais do ser. Isto é, do ser concebido como tendo uma natureza comum, que é inerente a todos e a cada um dos seres objetos de seu estudo.

Essas duas áreas fundadoras da filosofia são parte de uma macro área que conhecemos como metafísica. Podemos entende-la como a parte da filosofia que se ocupa em investigar a natureza fundamental das coisas, seja o ser (ontologia) ou o Universo (cosmologia).

Respostas de problemas filosóficos
Imagem 2: O truque da filosofia é começar por algo tão simples que ninguém ache digno de nota e terminar por algo tão complexo que ninguém entenda.

Apesar de essas serem as raízes da Filosofia na antiguidade, nem só de metafísica vive a Filosofia. Nomes como Platão e Aristóteles ficaram famosos também pelos seus escritos sobre política, estética, ética, teoria do conhecimento e muitos mais. Mas, vamos focar no primeiro da lista.

Dos problemas políticos da polis ao problema dos políticos

É isso aí, camarada! Os problemas envolvendo política já eram algo presente na antiguidade. Tanto é que o radical da palavra política vem de polis. Ou seja, a palavra política é derivada da palavra grega politeia, que indicava todos os procedimentos relativos à polis, ou cidade-Estado grega.

Platão, por exemplo, em sua obra “A República” escreveu sobre a sociedade ideal. Para Platão, na cidade ideal os filósofos seriam os governantes e as pessoas seriam valorizadas pelas suas competências, livres de preconceitos sexuais ou raciais.

Sendo assim, desde Platão e sua proposta política, os filósofos vêm estudando essa área tão complexa. De lá para cá, muito mudou. Abolimos a escravidão, criamos o sufrágio universal , campos de concentração foram erguidos e depois caíram, ditadores tombaram e outros tomaram seus lugares. Tudo isso tem sido estudado pela Filosofia. E seus arautos, os filósofos, tentam incessantemente achar uma maneira para que algumas das atrocidades do passado causadas pela política não se repitam.

A política e a educação

Peguemos como exemplo disso o filosofo Theodor Adorno. Esse filósofo escreveu um texto fantástico chamado “Educação após Auschwitz” em que ele denuncia como a formação de pessoas com grande capacitação técnica e quase nenhuma formação humana é danosa à sociedade.

Esse problema investigado a fundo por ele fica claro numa passagem na qual um engenheiro constrói uma estrada de ferro. Esse maravilhoso projeto da engenharia auxilia os militares nazistas a transportar com máxima eficiência os vagões.

Todavia, o engenheiro esquece, ou talvez se faz esquecer, que nestes vagões estão sendo transportados milhares de judeus que seriam torturados em campos de concentração (também projetados por engenheiros) e viveriam nesses campos em condições sub-humanas até que fossem exterminados em um processo super eficiente (do ponto de vista técnico) nas câmaras de gás.

Holocausto - o que a filosofia estuda
Imagem 3: É mais ou menos com isso que se parece a eficiência da educação técnica desprovida de educação humana.

Com esse exemplo, espero que você tenha percebido que os problemas políticos são parte importante das investigações filosóficas. Entretanto, é muito fácil notar como em nosso cotidiano muitas vezes todo esse conhecimento é simplesmente ignorado e acabamos por cometer os mesmos erros do passado, de novo e de novo.

Ética

Na tangente da política, outra problemática filosófica de grande importância é a ética. Também de origem grega (novidade, né?) ela surgiu inicialmente em uma obra chamada “Ética a Nicomaco”, escrita pelo grande filosofo Aristóteles.

Os problemas abordados pela ética talvez sejam os mais próximos ao nosso cotidiano. Isso porque ela lida com as relações entre as pessoas, refletindo acerca de quão viável, válida ou justa determinada ação foi, é ou será.

Para além do bem e do mal, a ética busca uma reflexão racional acerca dos problemas que que nos assolam de forma a resolvê-los – dentro de um conjunto de valores – da maneira mais justa possível.

Kant e a ética

São vários os problemas que se tornaram famosos a partir das reflexões dos filósofos sobre o tema. Temos por exemplo o filósofo Immanuel Kant com o problema da mentira. Segundo Kant, a mentira, qualquer que seja a sua motivação, nunca seria algo que serviria à ética. Através do chamado imperativo categórico, ele explica que jamais devemos mentir e nos dá bons argumentos do porquê.

Mas daí, para tacar lenha na fogueira, digo para ilustrar melhor, um tal político francês Benjamin Constant (1767-1830) propôs mais ou menos o seguinte: imagine que um assassino vai na sua casa e educadamente bate na porta. Você está amedrontado e ouve sua mãe indo atender a porta, então o assassino pergunta se você está em casa. O que sua mãe deveria responder?

Segundo Kant, sua mãe deveria dizer a pessoa que atende a porta a verdade, pois jamais a mentira seria algo bom. Entretanto, o imperativo categórico não priva nenhuma pessoa de mentir, basta deixar claro que essa não foi uma ação moral.

ética - o que estuda a filosofia
Imagem 5: A ética, tão presente em nosso cotidiano parece estar em falta.

Essas “tretas” polêmicas, tipo aquela do avião que foi abatido em 11 de setembro durante os atentados terroristas que derrubaram as torres gêmeas do World Trade Center, são a praia da ética. Aliás, é bem fácil achar problemas éticos em nosso cotidiano citando alguns temas como: aborto, Estado laico, eutanásia, legalização de entorpecentes e muitos mais.

A arte do belo

Para além das polêmicas da ética está a estética, um ramo da Filosofia que tem por objetivo o estudo da natureza, da beleza e dos fundamentos da arte. Há muito tempo os filósofos se dedicam a teorizar sobre a arte, embora, entender a beleza seja algo bastante complexo dado a subjetividade de certos conceitos. Analisar os problemas da estética produziu uma vastidão de conhecimento sobre o assunto.

estética
Imagem 6: A admiração é própria da natureza do filósofo; e a filosofia deriva apenas da estupefacção. Pintura: Fallen Angel, 1868, de Alexandre Cabanel.

Depois dos gregos, muitos foram os filósofos que se preocuparam com os problemas da estética – que aqui não tem nada a ver com manicures ou cabeleireiros – como Santo Agostinho e sua visão de inspiração aristotélica, Immanuel Kant com sua “Crítica da Faculdade do Juízo”, além de muitos outros nomes como Hegel, Baudelaire e Nietzsche.

Teoria do conhecimento

Agora, por trás de tudo isso que acabamos de ver, existe mais uma problemática famigerada na Filosofia, a teoria do conhecimento. Em geral, quase todos os filósofos que alcançaram grande destaque perante a academia têm algo a dizer sobre essa área.

Ela engloba os demais problemas que vimos até agora, já que essa parte da Filosofia se pergunta acerca do que podemos conhecer. Isto é, quais são os limites do nosso conhecimento e como posso saber se este conhecimento está correto?

tendências filosóficas - o que estuda a filosofia
Imagem 7: Há quem diga que a filosofia é composta de respostas incompreensíveis para questões insolúveis.

Para entender melhor, vamos tomar como exemplo o azul do céu de uma linda manhã ensolarada a beira-mar. O que me garante que o azul que eu enxergo é o mesmo azul que você enxerga? Sendo esse azul uma convenção e não o azul em si, eu posso realmente chamá-lo assim se tampouco é a cor que eu enxergo?

Bem, acho que você já percebeu que são muitos os assuntos que a Filosofia estuda, não é?

Exercícios sobre o que a Filosofia estuda:

1- (Enem/2017)

Uma pessoa vê-se forçada pela necessidade a pedir dinheiro emprestado. Sabe muito bem que não poderá pagar, mas vê também que não lhe emprestarão nada se não prometer firmemente pagar em prazo determinado. Sente a tentação de fazer a promessa; mas tem ainda consciência bastante para perguntar a si mesma: não é proibido e contrário ao dever livrar-se de apuros desta maneira? Admitindo que se decida a fazê-lo, a sua máxima de ação seria: quando julgo estar em apuros de dinheiro, vou pedi-lo emprestado e prometo pagá-lo, embora saiba que tal nunca sucederá.

KANT, l. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo. Abril Cultural, 1980

De acordo com a moral kantiana, a “falsa promessa de pagamento” representada no texto

a) Assegura que a ação seja aceita por todos a partir livre discussão participativa.

b) Garante que os efeitos das ações não destruam a possibilidade da vida futura na terra.

c) Opõe-se ao princípio de que toda ação do homem possa valer como norma universal.

d) Materializa-se no entendimento de que os fins da ação humana podem justificar os meios.

e) Permite que a ação individual produza a mais ampla felicidade para as pessoas envolvidas.

2- (Enem/2016)

Sentimos que toda satisfação de nossos desejos advinda do mundo assemelha-se à esmola que mantém hoje o mendigo vivo, porém prolonga amanhã a sua fome. A resignação, ao contrário, assemelha-se à fortuna herdada: livra o herdeiro para sempre de todas as preocupações.

SCHOPENHAUER, A. Aforismo para a sabedoria da vida. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

O trecho destaca uma ideia remanescente de uma tradição filosófica ocidental, segundo a qual a felicidade se mostra indissociavelmente ligada à

a) a consagração de relacionamentos afetivos.

b) administração da independência interior.

c) fugacidade do conhecimento empírico.

d) liberdade de expressão religiosa.

e) busca de prazeres efêmeros.

3- (Enem/2017)

Se, pois, para as coisas que fazemos existe um fim que desejamos por ele mesmo e tudo o mais é desejado no interesse desse fim; evidentemente tal fim será o bem, ou antes, o sumo bem. Mas não terá o conhecimento grande influência sobre essa vida? Se assim é esforcemo-nos por determinar, ainda que em linhas gerais apenas, o que seja ele e de qual das ciências ou faculdades constitui o objeto. Ninguém duvidará de que o seu estudo pertença à arte mais prestigiosa e que mais verdadeiramente se pode chamar a arte mestra.

Ora, a política mostra ser dessa natureza, pois é ela que determina quais as ciências que devem ser estudadas num Estado, quais são as que cada cidadão deve aprender, e até que ponto; e vemos que até as faculdades tidas em maior apreço, como a estratégia, a economia e a retórica, estão sujeitas a ela. Ora, como a política utiliza as demais ciências e, por outro lado, legisla sobre o que devemos e o que não devemos fazer, a finalidade dessa ciência deve abranger as duas outras, de modo que essa finalidade será o bem humano.

ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco. In: Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1991 (adaptado)

Para Aristóteles, a relação entre o sumo bem e a organização da pólis pressupõe que

a) O bem dos indivíduos consiste em cada um perseguir seus interesses.

b) O sumo bem é dado pela fé de que os deuses são os portadores da verdade.

c) A política é a ciência que precede todas as demais na organização da cidade.

d) A educação visa formar a consciência de cada pessoa para agir corretamente.

e) A democracia protege as atividades políticas necessárias para o bem comum.

4- (Enem/2012)

TEXTO I

Experimentei algumas vezes que os sentidos eram enganosos, e é de prudência nunca se fiar inteiramente em quem já nos enganou uma vez.

DESCARTES, R. Meditações Metafísicas. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

TEXTO II

Sempre que alimentarmos alguma suspeita de que uma ideia esteja sendo empregada sem nenhum significado, precisaremos apenas indagar: de que impressão deriva esta suposta ideia? E se for impossível atribuir-lhe qualquer impressão sensorial, isso servirá para confirmar nossa suspeita.

HUME, D. Uma investigação sobre o entendimento. São Paulo: Unesp, 2004 (adaptado).

Nos textos, ambos os autores se posicionam sobre a natureza do conhecimento humano. A comparação dos excertos permite assumir que Descartes e Hume

a) defendem os sentidos como critério originário para considerar um conhecimento legítimo.

b) entendem que é desnecessário suspeitar do significado de uma ideia na reflexão filosófica e crítica.

c) são legítimos representantes do criticismo quanto à gênese do conhecimento.

d) concordam que conhecimento humano é impossível em relação às ideias e aos sentidos.

e) atribuem diferentes lugares ao papel dos sentidos no processo de obtenção do conhecimento.

5- (Enem/2012)

TEXTO I

Anaxímenes de Mileto disse que o ar é o elemento originário de tudo o que existe, existiu e existirá, e que outras coisas provêm de sua descendência. Quando o ar se dilata, transforma-se em fogo, ao passo que os ventos são ar condensado. As nuvens formam-se a partir do ar por feltragem e, ainda mais condensadas, transformam-se em água. A água, quando mais condensada, transforma-se em terra, e quando condensada ao máximo possível, transforma-se em pedras.

BURNET, J. A aurora da filosofia grega. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2006 (adaptado).

TEXTO II

Basílio Magno, filósofo medieval, escreveu: “Deus, como criador de todas as coisas, está no princípio do mundo e dos tempos. Quão parcas de conteúdo se nos apresentam, em face desta concepção, as especulações contraditórias dos filósofos, para os quais o mundo se origina, ou de algum dos quatro elementos, como ensinam os Jônios, ou dos átomos, como julga Demócrito. Na verdade, dão impressão de quererem ancorar o mundo numa teia de aranha.”

GILSON, E.: BOEHNER, P. Historia da Filosofia Crista. São Paulo: Vozes, 1991 (adaptado).

Filósofos dos diversos tempos históricos desenvolveram teses para explicar a origem do universo, a partir de uma explicação racional. As teses de Anaxímenes, filósofo grego antigo, e de Basílio, filósofo medieval, têm em comum na sua fundamentação teorias que

a) eram baseadas nas ciências da natureza.

b) refutavam as teorias de filósofos da religião.

c) tinham origem nos mitos das civilizações antigas.

d) postulavam um princípio originário para o mundo.

e) defendiam que Deus é o princípio de todas as coisas.

Gabarito

  1. C
  2. B
  3. C
  4. E
  5. D.

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva